Diálogos sonoros - tentativas de levantar definições
Filipe Lacerda Batista de Sousa
Práticas artísticas e escrita – Nitza
A voz do ator em Adriana Cavarero, Antunes Filho,
Samuel Beckett e Paul Zumthor
A
voz, como dimensão expressiva e relacional do corpo, ocupa um lugar central nas
reflexões de Adriana Cavarero, Antunes Filho, Samuel Beckett e Paul Zumthor.
Embora provenientes de campos distintos filosofia, direção teatral, dramaturgia
e teoria da performance, todos convergem na compreensão da voz como presença,
memória e gesto de existência. Ao se aproximar da questão da voz do ator, suas
perspectivas ajudam a compreender a vocalidade não apenas como técnica, mas
como forma de pensamento e presença performática.
Paul
Zumthor, medievalista, teórico da literatura e estudioso da performance oral,
propõe uma virada sensível no modo de compreender a voz. Em Performance, recepção e leitura (2007), ele
destaca que a voz é o ponto de encontro entre o corpo e o mundo, afirmando que
a voz deve ser entendida como experiência sensível e performativa. A voz é o
lugar da presença: não é apenas meio de comunicação, mas a própria manifestação
de uma existência no tempo e no espaço. Zumthor ressalta ainda que a voz “implica
uma relação entre dois corpos”, aproximando seu pensamento da concepção de
Cavarero sobre a alteridade vocal: a voz existe sempre em direção a alguém,
instaurando um campo relacional que é, antes de tudo, corporal e afetivo.
Em
suas reflexões sobre oralidade e performance, Zumthor reconhece na voz uma
dimensão de instabilidade e efemeridade, o que a aproxima do teatro e da
atuação. Para ele, a voz é um ato, não um objeto; ela se dá no instante,
desaparecendo logo em seguida, mas deixando rastros na escuta. Essa noção de
voz como ato performativo dialoga profundamente com o trabalho do ator, que, ao
vocalizar, cria uma presença que é ao mesmo tempo física e transitória. Assim
como Beckett transforma a voz em ruína e eco, Zumthor entende que a voz é presença
que se esvai uma arte do instante, cuja força está justamente no
desaparecimento.
No
campo da prática cênica, o pensamento de Zumthor encontra correspondência no
método de Antunes Filho, que tratava a voz e o corpo como um único gesto.
Quando Antunes afirmava que “tudo que se fala aqui tem que se provar com o
corpo e com a voz”, ele revelava, na prática, o que Zumthor teoriza: a
inseparabilidade entre palavra e presença, som e corpo. O ator, nesse contexto,
é o portador de uma voz que não representa, mas que acontece uma voz que cria
espaço e transforma a escuta em experiência partilhada.
Zumthor
também amplia a compreensão da voz do ator ao associá-la à ideia de vocalidade,
um conceito que ele define como “um conjunto de fenômenos ligados à emissão da
voz humana, considerados do ponto de vista de sua materialidade e de seus
efeitos sensíveis”. A vocalidade, portanto, é o território onde o ator atua um
campo de forças em que som, corpo e sentido se entrelaçam. Nesse espaço, a voz
não é apenas linguagem, mas matéria performativa e gesto criador, em
consonância com o que Cavarero entende como expressão da singularidade e o que
Beckett dramatiza como ruína da existência.
Nos
quatro autores, a voz é compreendida como acontecimento. Cavarero a pensa como
gesto ético e relacional; Antunes a trabalha como expressão da verdade orgânica
do ator; Beckett a revela como vestígio de consciência e ruína do corpo;
Zumthor a teoriza como performance da presença e vibração do sensível. Em
comum, todos deslocam a voz do campo técnico para o campo do ser: a voz do ator
não é apenas meio de expressão, mas modo de existir, forma de pensamento e
presença no espaço performático.
O que eu entendo por voz do ator
Para
mim, a voz do ator não é apenas um instrumento de emissão ou expressão, mas um
corpo sonoro, um gesto que pensa, vibra e cria espaço. A voz é matéria
dramatúrgica: participa da construção da cena não apenas por meio da fala, mas
através da presença sonora que ela instaura. O ator não apenas fala, mas faz
soar: transforma o som em dramaturgia e o corpo em ressonância.
Entendo
a voz como um acontecimento performativo, uma forma de pensar e de compor o
teatro por meio da escuta. Ela é gesto e pensamento ao mesmo tempo: gesto
porque se inscreve no corpo e no espaço; pensamento porque é uma forma de
criação dramatúrgica, capaz de produzir sentido mesmo sem depender da palavra.
Essa percepção se aproxima da reflexão de Adriana Cavarero, quando afirma que a
voz revela algo de quem a emite (CAVARERO, 2011). A autora entende a voz como
singularidade e relação: uma presença ética e sensível que resiste à abstração
do texto, pois é sempre dirigida a alguém.
A
voz também se configura como arquivo vivo: carrega memórias, vestígios e
camadas de tempo, funcionando como testemunho e invenção. Escutar o espaço seja
da cidade, do ruído ou dos silêncios amplia essa concepção, fazendo da voz um
ponto de contato entre o íntimo e o coletivo. Ao vocalizar, o ator não apenas
projeta sua voz no espaço, mas faz ecoar outras vozes, memórias e sonoridades
que o atravessam. Essa dimensão da escuta partilhada se aproxima do pensamento
de Paul Zumthor (2007), para quem a voz é sempre performance e relação, um
lugar de passagem entre o corpo e o mundo.
No
campo prático, percebo ressonâncias desse entendimento no trabalho de Antunes
Filho. No Centro de Pesquisa Teatral (CPT), Antunes tratava a voz como extensão
do corpo e como via de revelação do ator. Ele afirmava: “Tudo que se fala aqui
tem que se provar. Eu não posso falar bulhufas se eu não fizer bulhufas. Tenho
que provar tudo com o meu corpo e com a minha voz” (ANTUNES FILHO, s.d.). Essa
organicidade entre voz e gesto revela o modo de pensar o ator como instrumento
total, em que a vocalidade é expressão da verdade cênica e não mero recurso técnico.
A voz, nesse sentido, não é separada do corpo, mas o prolonga é uma escrita
corporal, uma ação dramatúrgica que instaura presença e sentido.
Já
Samuel Beckett, de modo poético e existencial, oferece outra via de compreensão
dessa voz. Em Krapp’s Last Tape (1958),
o personagem ouve a gravação de sua própria voz e confronta-se com o tempo e a
memória. A voz torna-se ruína e espelho: presença ausente de um corpo que já
foi. Essa relação entre voz, memória e desaparecimento ecoa fortemente em minha
percepção de que a voz do ator é também um gesto de escuta: uma presença que se
desfaz no instante em que ressoa, mas deixa vestígios, rastros e ecos.
Assim,
o que eu entendo por voz do ator é algo múltiplo: é matéria dramatúrgica,
arquivo vivo e presença performativa. Ela se desdobra entre o dizer e o ouvir,
entre o corpo e o espaço, entre o som e o silêncio. Compreendo a voz como
dramaturgia: não apenas um meio de expressão, mas um fim em si mesma uma forma
de escrita efêmera, vibrante e política, que cria mundos no instante em que
ressoa.
O
diálogo entre Adriana Cavarero, Antunes Filho, Samuel Beckett e Paul Zumthor é
importante para minha pesquisa porque permite fundamentar a voz do ator como
fenômeno complexo, que vai além da técnica ou da fala literal. Cada autor
oferece uma perspectiva que se entrelaça com os eixos do projeto voz,
dramaturgia e sonoridade, criando uma rede de referências que justifica
teoricamente o que se pratica na cena.
1.
Cavarero mostra que a voz é ética e relacional: ela
existe em relação a outro e revela a singularidade de quem fala. Isso reforça a
ideia de que a voz do ator não é apenas emissão de som, mas um gesto de
presença, atenção e relação com o público e o espaço.
2.
Antunes Filho evidencia que a voz está integrada ao
corpo e ao gesto, sendo expressão da verdade cênica. Essa visão confirma o que
se experimenta na prática: a voz do ator não se reduz ao texto, mas é parte de
um processo total de composição dramática, onde cada fonema, respiração ou
silêncio se conecta à presença física e à construção da cena.
3.
Beckett introduz a dimensão existencial e temporal da
voz, mostrando que ela pode ser vestígio, memória e ruína. Isso é crucial para
pensar a voz como arquivo e registro um som que carrega camadas de tempo,
histórico e memória, reforçando o interesse por arquivos vocais e paisagens
sonoras.
4.
Zumthor oferece a perspectiva de que a voz é ato,
presença e performance, sempre situada no encontro entre corpo e mundo. Ele
conecta teoria e prática, ajudando a compreender que a voz do ator não é apenas
expressiva, mas também performativa, efêmera e relacional um fenômeno que
existe no instante da escuta e do fazer cênico.
Comentários
Postar um comentário