Práticas artísticas e escrita - Nitza

     O momento ideal para a minha prática de escrita, é pelo período da tarde em algum lugar que dê para focar, que pode ser em casa, ou em uma biblioteca,  como eu estudo com frequência na LBV, segue um excelente exemplo. O lugar precisa ser na medida do possível, um lugar silencioso, ainda que tenha pequenos ruídos, o bom de estudar na LBV é o fato de que tem uma cascata no fim da biblioteca, o som é muito relaxante, o ambiente não fica muito quente, e qualquer ruído menor o som da cascata equaliza. Todavia, ainda sobre o som, levo comigo um fone equalizador de ruídos externos que sempre coloco para estudar, e acompanha alguma música de muitos estilos, mas a depender do trabalho, alguma música instrumental relaxante que não me estimule para dançar, mas que relaxe toda a tenção do corpo que fica sentado.

    Utilizo frequentemente o computador para escrever e organizar formalmente os materiais da universidade, ou de outra demanda de trabalho, ainda que possua um caderno que anote minhas ideias e que possa rabiscar inúmeras vezes. Penso em comprar um tablet, para ter mais conforto no deslocamento pela cidade, uma vez que nem sempre estou de carro, mas sempre de mochila. 

     Outro fato muito importante é que ao lado da biblioteca na LBV, tem um restaurante/lanchonete, isso ajuda muito na hora da fome e do cafézinho as 16 da tarde, ainda sobre o café, levo comigo um copo térmico para beber com conforto. Se for na minha casa o dia do estudo, passo o café mais vezes pelo menos, duas vezes pela tarde. 

    Gosto de começar a estudar as 14:00 da tarde, esse turno é o que melhor funciona pra mim, pois pela manhã já fiz várias coisas que não dizem respeito aos estudos, então na minha cabeça sentar para estudar quando já organizei a outra parte dos afazeres diários me tranquiliza. Existe um ponto muito importante sobre horário, ainda que não comece as 14:00 minha cabeça suporta a ideia de começar a estudar até 14:35, ou seja, 35 minutos de atraso, após esse horário sinto que perdi muito tempo, e que posso não recompensar o tempo perdido, então a ansiedade cresce e a paz q eu procuro ter para estudar, some.

    Escrever sobre a prática artística está sendo um processo muito agradável e desafiador, pois esse lugar de ator pesquisador é um lugar novo em comparação ao lugar do atuante, da obsessão na atuação, que passei vários anos explorando e construindo. Então parar, pesquisar, procurar referências, escrever e pensar as práticas artísticas desenvolve uma outra maneira de construção, o que aumenta muito o entendimento do que se faz, da autonomia no processo artístico e da própria inteligência cênica.

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    Uma passagem artística que mudou muito a minha maneira de construir minha carreira artística, foi o show na esplanada dos ministérios, um show gratuito do Caetano Veloso. Aquele foi um acontecimento de alta espetacularidade, capaz de redefinir todo o meu trajeto artístico.

    Estava no começo da minha carreira, naquele momento vários investimentos em diversas aulas de dança, canto e interpretação. Ainda não estava claro meu caminho por isso experimentava tudo, aproveitava todas as aulas disponíveis, ao mesmo tempo,  não tinha como aprofundar alguma vivência, por falta de tempo e sobretudo tinha muito medo de ser menor, de ser comum, um simples ator sem brilho. 

    Não me lembro bem minha idade, mas tinha entre 21 a 23 anos, fazia a escola técnica profissionalizante de teatro Wolf Maya em São Paulo. Uma escola que fica dentro de um shopping, que tem influências da TV, e com valores americanos sobre a formação dos atores. Por isso, a minha mentalidade de como um ator deveria ser, passava por esses valores e por cada professor da escola que acrescentava na minha jornada. 

    Em uma das minhas visitas para Brasília, tive a oportunidade de ver meu primeiro show do Caetano Veloso na esplanada, na época fui acompanhado do meu irmão André com alguns dos seus amigos. Eu via aquela oportunidade mais como um evento, alguma oportunidade em aproveitar a cidade, o céu, beber e conversar e se tivesse sorte, teríamos um bom show. Não fazia ideia se estaria muito lotado, se o evento por ser de graça corria o risco de ter violência, enfim, minhas expectativas eram baixas em relação ao show. Não era da galera da MPB.

    Ao chegar na esplanada, era noite, e por sorte não estava muito lotado e aparentemente seguro. Relaxei e quando anunciaram que o show começaria, nos voltamos para o palco e esperamos Caetano entrar. Lembro como se fosse hoje essa entrada, palco grande todo escuro, uma luz tipo pim bim acende, revela-se uma cadeira e um pedestal com microfone, um palco vazio. Entra Caetano todo vestido de preto e um violão. Ele cumprimenta Brasília e logo em seguida começa a cantar sua primeira música.

    Esse momento eu pude ver e sentir algo extraordinário, é difícil por em palavras mas o que eu vi foi uma onda magnética irradiava daquela voz, daquela presença e seguir diante a multidão na esplanada, passando por mim sem a intenção de parar. Era como uma força elétrica, ao mesmo tempo potente e sensível se estabelecesse, e assim como o mar, a força ia e voltava. 

    A partir dessa experiência enquanto o show continuava, algumas "chaves" viraram, consegui entender a importância de ser brasileiro nas artes, de olhar e valorizar nossa cultura, entender que por mais que existam mil técnicas gringas, a força do artista brasileiro é tão potente quanto qualquer estrangeiro de muito sucesso. 

    Sai desse show muito comovido e algumas certezas foram completamente destruídas. Redefini minha rota,  parei de investir em tudo aquilo que não fazia muito sentido e comecei a buscar novos lugares em que o teatro brasileiro fosse o centro das questões. 

    

    

    
      

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