Tríptico performativo: voz, cidade e paisagem sonora em Brasília

 Introdução 

    Este capítulo apresenta a etapa prática da pesquisa intitulada Entre o grito e o sussurro: A dramaturgia vocal do ator em diálogo com paisagens sonoras e poesia experimental, composta por três experimentos performativos realizados em espaços públicos da cidade de Brasília. Cada experimento parte de uma proposição vocal específica (silêncio, suspensão, invocação) e se inscreve em locais urbanos de intensa circulação e conflito: a Rodoviária do Plano Piloto,  o chão do Eixão e uma passagem subterrânea na Asa Norte.

        Ao se deslocar do espaço cênico tradicional para o espaço público, a voz do ator é provocada a lidar com novos regimes de escuta e presença. Esses experimentos propõem a criação de uma dramaturgia vocal expandida, na qual o som da cidade, seus ruídos, suas interrupções e reverberações, não é pano de fundo, mas parte ativa da cena. A investigação parte do princípio de que a voz do ator não é apenas um instrumento de comunicação textual, mas um corpo sonoro em relação com o ambiente, capaz de convocar afetos, disputar sentidos e tensionar o espaço urbano como território dramatúrgico.

Fundamentos Teóricos e conceituais

    A prática aqui apresentada se ancora em três pilares teóricos que atravessam todo o projeto:

  1. A voz como presença dramatúrgica: Conforme Cavarero (2009), a voz não é apenas um veículo da linguagem, mas um acontecimento singular que revela a presença e a vulnerabilidade de quem fala. A pesquisa se interessa por essa voz que é corpo, que se materializa como gesto, respiração, timbre, hesitação, ruído.
  2. A escuta como construção poética: Inspirada por John Cage e a tradição da poesia sonora, a pesquisa investiga a escuta como forma de composição. O silêncio, o quase som e o ruído tornam-se elementos dramatúrgicos que não se submetem a lógica do texto dramático, mas o atravessam e o expandem.
  3. A cidade como paisagem sonora e política: O espaço urbano é aqui entendido como campo de disputa de sentidos, onde sons, corpos e fluxos constroem tensões performativas. A cidade escuta e responde. A performance vocal é um modo de interrogar essa escuta.
Experimentos Cênicos

     Os três experimentos cênicos serão apresentados por vídeo em julho de 2025, as performances estarão gravadas, ou seja, elas serão realizadas em maio, junho e podendo chegar a julho de 2025. Não se trata de encenações performativas que colocam a voz do ator em relação com o ambiente, o acesso e o ruído.

Considerações Finais 

      Esses três experimentos compõem um tríptico performativo que articula três modos de voz: silêncio, suspensão e invocação. Juntos, eles investigam a dramaturgia vocal do ator como corpo em escuta e em presença no espaço urbano. A cidade, longe de ser apenas cenário, torna-se dramaturgia, intervém, responde, reverbera.

    A voz, por sua vez não é instrumento isolado, mas matéria viva, vulnerável, que vibra. É gesto ético e político, é presença em disputa.

    Essas ações performativas constituem, assim, o alicerce prático de uma poética vocal expandida, onde o ator é também antena, ruído, território. E a dramaturgia nasce, não da palavra escrita, mas daquilo que vibra entre o grito e o sussurro

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