Tríptico performativo: voz, cidade e paisagem sonora em Brasília
Introdução
Este capítulo apresenta a etapa prática da pesquisa intitulada Entre o grito e o sussurro: A dramaturgia vocal do ator em diálogo com paisagens sonoras e poesia experimental, composta por três experimentos performativos realizados em espaços públicos da cidade de Brasília. Cada experimento parte de uma proposição vocal específica (silêncio, suspensão, invocação) e se inscreve em locais urbanos de intensa circulação e conflito: a Rodoviária do Plano Piloto, o chão do Eixão e uma passagem subterrânea na Asa Norte.
Ao se deslocar do espaço cênico tradicional para o espaço público, a voz do ator é provocada a lidar com novos regimes de escuta e presença. Esses experimentos propõem a criação de uma dramaturgia vocal expandida, na qual o som da cidade, seus ruídos, suas interrupções e reverberações, não é pano de fundo, mas parte ativa da cena. A investigação parte do princípio de que a voz do ator não é apenas um instrumento de comunicação textual, mas um corpo sonoro em relação com o ambiente, capaz de convocar afetos, disputar sentidos e tensionar o espaço urbano como território dramatúrgico.
Fundamentos Teóricos e conceituais
A prática aqui apresentada se ancora em três pilares teóricos que atravessam todo o projeto:
- A voz como presença dramatúrgica: Conforme Cavarero (2009), a voz não é apenas um veículo da linguagem, mas um acontecimento singular que revela a presença e a vulnerabilidade de quem fala. A pesquisa se interessa por essa voz que é corpo, que se materializa como gesto, respiração, timbre, hesitação, ruído.
- A escuta como construção poética: Inspirada por John Cage e a tradição da poesia sonora, a pesquisa investiga a escuta como forma de composição. O silêncio, o quase som e o ruído tornam-se elementos dramatúrgicos que não se submetem a lógica do texto dramático, mas o atravessam e o expandem.
- A cidade como paisagem sonora e política: O espaço urbano é aqui entendido como campo de disputa de sentidos, onde sons, corpos e fluxos constroem tensões performativas. A cidade escuta e responde. A performance vocal é um modo de interrogar essa escuta.
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