Objeto de estudo - Substituição do Experimento Cênico 2 - 2'11 Corpo Inteiro: Rodoviária de Ecos


 Reformulação do experimento performativo 

    Este segundo experimento surge da necessidade de descentralizar a voz enquanto eixo principal da investigação, propondo uma escuta mais horizontal e compartilhada entre corpo, espaço e sonoridade urbana. Na formulação anterior, a voz corria o risco de se impor sobre qualquer outro aspecto investigativo. Ao revisar essa abordagem, a proposta se reposiciona no campo da escuta radical: aqui, a vocalidade não desaparece, mas se retira estrategicamente, abrindo espaço para que a cidade atravesse o corpo e se faça ouvir.

                                                   2'11 Corpo Inteiro: Rodoviária de Ecos

    Este segundo experimento performativo investiga a relação entre corpo, voz e paisagem sonora urbana a partir de uma dramaturgia da ausência vocal. Inspirado pela obra 4'33" de John Cage, onde o silêncio revela o som ambiente como composição, este gesto propõe deslocar a centralidade da voz para uma escuta horizontal. Aqui, o corpo do ator se apresenta em estado de prontidão vocal, tensionando o momento do enunciado, mas deixando tudo em suspensão. A voz nãos e realiza. O som vem da cidade.

Inspiração e provocação estética 

      Inspirado na peça performática 4'33, de John Cage, que desloca o centro da atenção auditiva para o ambiente e valoriza o silêncio como potência compositiva, este experimento parte do gesto vocal da não vocalização: um corpo em estado de emissão suspensa, que respira, prepara a fala, mas não emite som. A voz se torna latência, ausência expressiva, buraco sonoro que convoca a escuta. Trata-se de uma presença vocal sem voz, em que o silêncio não é vazio.

Intenção dramatúrgica

       A performance constrói uma ilusão de espetáculo. O ator se posiciona com um microfone  em mãos, sobre um banco ou estrutura que simula um palco improvisado na Rodoviária do Plano Piloto. O ambiente sonoro é denso: ruídos de motores, passos apressados, anúncios, buzinas, vendedores. Tudo colabora para um clima de espera e distração. quando o ator abre a boca para vocalizar, e não o faz, instala-se o vazio, o desconcerto. O silêncio não é ausência, mas provocação. O corpo torna-se vetor de escuta. A cidade, em sua cacofonia pulsante, emerge como verdadeira performer.

        Durante 2 minutos e 11 segundos, o ator permanece imóvel, de boca aberta, respirando, sustentando um gesto vocal interrompido. Ao final, realiza um breve gesto de agradecimento, como quem encerra um espetáculo. o som que não aconteceu torna-se o que mais reverbera.

Local: Rodoviária do Plano Piloto, Brasília

     A performance acontece na Rodoviária do Plano Piloto, centro nervoso da capital, lugar onde se cruzam temporalidades, classes, deslocamentos, anúncios, ambulantes, buzinas, passos, alarmes, engarrafamento de carros e pessoas, sotaques. Ao escolher esse lugar, a ação performativa se posiciona em confronto (ou escuta) a essa pulsação contínua, questionando se é possível performar o silêncio em um lugar que nunca se cala.

Dispositivo performativo

  • O ator se posiciona em pé, no centro de um fluxo intenso de pessoas
  • Durante 2 minutos e 11 segundos, permanece imóvel, com o corpo ativado e a boca entreaberta, em estado de emissão suspensa.
  • O gesto de abrir a boca sem vocalizar propõe um som que não vem, um quase grito de um quase sussurro
  • Ao fim do tempo, o ator fecha lentamente a boca, agradece com um gesto simples, e se retira.
Documentação e análise

       O experimento será registrado em vídeo e áudio, com câmera fixa e microfone de alta sensibilidade. Os materiais servirão para posterior análise no diário de bordo, onde serão observadas:
  • as relações do público
  • as camadas sonoras captadas no tempo da performance
  • e a potência dramatúrgica do silêncio como provocação vocal e política.
    Este trabalho aprofunda o princípio de coextensão entre corpo, voz e cidade, abrindo caminho para pensar uma dramaturgia da escuta, onde a performance é o som que o ator não emite, mas que ele permite acontecer.

Justificativa temporal: por que 2'11

      O tempo escolhido, 2 minutos e 11 segundos, alude a uma fração da peça de Cage e também propõe um tempo limite de resistência silenciosa no espaço urbano lotado de ruídos. É o tempo suficiente para que a cena estranhe, para que o corpo comece a ser notado, deslocando o olhar comum sobre o ambiente. Esse tempo marca a tensão entre o que poderia ser dito e o que é suspenso.

Dimensão estética e política 

     A escolha da Rodoviária do Plano Piloto não é apenas geográfica, mas simbólica: trata-se de um dos espaços mais sonoros e tensionados de Brasília, ponto de passagem, mistura e ruído. O experimento, ao simular uma ato performático e frustrá-lo, opera uma inversão: normalmente ignora, a cidade que grita, murmura e se impõe. A dramaturgia, portanto, se constrói na escuta coletiva e na fricção entre expectativa e suspensão. 

Referências conceituais:
  • John Cage: o silêncio como escuta do mundo
  • Brandon LaBelle: a cidade como corpo acústico
  • Adriana Cavarero: voz como exposição de si, mesmo sem dizer
  • Michel Serres: ruído como condição da comunicação

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