Decisões Artísticas - (Enquanto não mudo de ideia)
Título Provisório do Projeto Artístico
(09/05/25 novo título) Quando o Corpo é a Cidade e a Voz é o Gesto
(Título para um possível artigo) Entre o Grito e o Sussurro: A dramaturgia vocal do ator em diálogo com as paisagens sonoras e a poesia experimental
Definições do que pretende realizar
No âmbito etimológico da Vox latina, o primeiro significado de vocare é chamar, invocar. Ainda antes de se fazer palavra, a voz é uma invocação dirigida ao outro e confiante num ouvido que a acolhe. A sua cena inaugural coincide com o nascimento. Aqui o infante, com seu respiro inicial, invoca uma voz em resposta, chama um ouvido para acolher seu grito, convoca outra voz. A ligação intrauterina - que já era rítmica, musical - é quebrada. O primeiro vagido invoca então novo liame sonoro: vitalmente decisivo como a respiração que o sustenta. (...) A voz é sempre para o ouvido, é sempre relacional; mas nunca o é de modo peremptório como no vagido do infante: vida invocativa que se entrega inconscientemente a uma voz que responda. (...) Essa ligação instaura a comunicação primária de qualquer comunicável e por isso constitui um pré-requisito. Ainda não há nada a comunicar, salvo a comunicação mesma em sua pura vocalidade. Acima de tudo, a voz significa, ela mesma, nada além de um vocálico relacional que já está implícito, como invocação, no vagido inaugural. (Cavarero, 2011, p.199)
A partir dessa perspectiva relacional da voz, anterior à palavra, fundada na escuta e na alteridade, é possível compreender como as transformações sociais e tecnológicas a partir do século XIX impactaram não só a linguagem, mas também o modo como nos relacionamos com a própria vocalidade.
O século XIX e, com mais intensidade, ao longo do século XX, corpo e voz passam a ser compreendidos de maneira indissociável. Esse período é marcado por profundas transformações sociais e estéticas, impulsionadas pelas invenções tecnológicas, pela aceleração do tempo urbano e pela consolidação da indústria. Há uma mudança sensível na linguagem, não apenas na forma como se escreve ou se fala, mas na própria percepção do que comunicar. A voz, atravessada por essas forças, torna-se também território de experimentação e resistência, refletindo os choques e os ritmos de uma nova era.
Nesse percurso, os experimentos vocais que emergem entre o final do século XIX e o início do século XXI, atravessando movimentos como o futurismo e o dadaísmo, e desdobrando-se nas práticas da poesia sonora, reposicionam a voz como matéria performática em si. O futurismo, ao exaltar máquinas, a velocidade e os ruídos da modernidade, propôs uma vocalidade atravessada pela dissonância e pela artificialidade. Já o dadaísmo, em sua recusa ao sentido lógico e à racionalidade, instaurou uma voz fragmentada, caótica, feita de sons desconexos e associações livre. Ambos os movimentos contribuíram para deslocar a voz da função de mero veículo da linguagem para torná-la gesto sonoro, presença viva, corpo em vibração.
Nas artes cênicas, é vasto o campo de investigações sobre o corpo do ator, suas presenças dinâmicas e relações com o espaço e a cena. No entanto, quando se trata da voz, ainda que ela seja parte indissociável do corpo, observa-se uma lacuna significativa tanto nas pesquisas práticas quanto nos estudos teóricos. Frequentemente reduzida a um instrumento técnico de projeção ou à tarefa de transmitir o texto dramático, a voz tem sido historicamente tratada como um meio e não como acontecimento cênico em si. Mesmo nas abordagens que propõe uma expansão da fisicalidade do ator, a voz tende a ser subordinada ao gesto ou ao movimento.
Esta pesquisa nasce da necessidade de tensionar essa lógica, propondo um deslocamento: pensar a voz como corpo sonoro, com potência dramatúrgica própria, capaz de produzir sentido, presença e afetação a partir da escuta, do ruído, da paisagem e do espaço. trata-se, portanto, de uma tentativa de reinscrever a voz no campo das dramaturgias contemporâneas como gesto autônomo e criador.
Inserida no contexto da cidade de Brasília com suas especificidades acústicas, espaciais e simbólicas, esta pesquisa propõe a criação de três experimentos cênico-performativos que investigam a voz do ator como uma fonte potente de criação, em diálogo com as paisagens sonoras urbanas de Brasília e com a poesia sonora. Longe de ocupar um lugar central ou isolado, a voz se articula ao corpo, ao espaço e ao som da cidade, compondo partituras e dispositivos performáticos que buscam tensionar os limites entre teatro, performance e composição vocal.
A proposta se ancora na escuta como gesto criador, tomando o ruído, muitas vezes rejeitado ou ignorado, como matéria estética e dramatúrgica.
Independente de onde estamos, o que mais escutamos é ruído. Quando ignoramos o ruído, ele nos incomoda. Se nós o ouvimos, achamos fascinante. O som de um caminhão a cinquenta milhas por hora. Ruído fora das estações de rádio. Chuva. Nós queremos capturar e controlar estes sons, para usá-los não como efeitos sonoros, mas como instrumentos musicais (...) Com o filme fotográfico é agora possível controlar amplitude e frequência de muitos desses sons, e dar a eles ritmos muito além do que alcança a imaginação (Cage, 20011, p. 3)
Ao contrário de outros órgãos dos sentidos, os ouvidos são expostos e vulneráveis. Os olhos podem ser fechados, se quisermos; os ouvidos não, estão sempre abertos. os olhos podem focalizar e apontar nossa vontade, enquanto os ouvidos captam todos os sons do horizonte acústico, em todas as direções. (Schafer, 1992, p.55)
Inspirada por esses pensamentos, a pesquisa propõe uma escuta expandida do ambiente e da vocalidade, onde a cidade atua como instrumento e partitura, e a voz do ator se transforma em resposta sensível às camadas sonoras que atravessam o espaço urbano.
O foco da pesquisa está nos processos de criação cênico-performativos baseados na vocalidade do ator em diálogo com paisagens sonoras urbanas. A voz é abordada como gesto dramatúrgico, capaz de afetar, invocar e transitar entre o íntimo e o coletivo, o poético e o urbano, a escuta e seus espaços não convencionais, será o campo prático e simbólico dessa investigação.
(atualização 09/05/25) Perguntas orientadoras
- Qual o futuro da voz no teatro?
- Que sons urbanos invadem minha voz e transformam a cena? (Brasília como partitura)
- Como posso me tornar um instrumento tocado pela cidade?
- Em que momentos a voz deixou de ser "minha" e passou a ser da cena, do espaço, do outro?
Definição do contexto de produção
O projeto será realizado na cidade de Brasília, com performances concebidas para espaços não convencionais, como salas de ensaio, passagens subterrâneas e ambientes acústicos diversos. A equipe será formada por um núcleo reduzido de amigos/colaboradores
- Intérprete e criador: Filipe Lacerda
- Direção colaborativa/vocal: Filipe Lacerda e ?
- Documentação Audiovisual: Filipe Lacerda e ?
- Consultoria técnica de som e iluminação: Filipe Lacerda e ?
O cronograma prevê 3 fases:
- Pesquisa teórica
- Desenvolvimento e ensaios dos três experimentos
- Gravação e sistematização dos "resultados"
O registro do processo será feito por meio de anotações no blogger, como um diário de bordo, o que inclui os ensaios. Todo esse material servirá como base para reflexão e análise do processo criativo.
Fontes/pontos de partida do projeto artístico
- Movimentos Artísticos: Futurismo, Dadaísmo
- Adriana Cavarero - Vozes Plurais: filosofia da expressão vocal
- Antonin Artaud - O Teatro e seu Duplo
- Ileana Diéguez Caballero. Cenário Liminares: teatralidades, performances e política
- John Cage - Silêncio
- Lucia Gayotto. Voz, partitura da Ação
- Marlene Fortuna. A performance da oralidade teatral
- Marvin Carlson. Performance: uma introdução crítica
- Murray Schafer - Ouvido pensante
- Paul Zumthor e Philadelpho Menezes. Poesia Sonora: Poéticas Experimentais da voz no século XX
- Platão - Crátilo
- RoseLee Goldberg. A arte da performance. Do Futurismo ao Presente
- Vera Terra. Acaso e aleatório na música: um estudo da indeterminação nas poéticas de Cage e Boulez
- Yoshi Oida. O ator invisível
- Yoko Ono
- Laurie Anderson
- Américo Rodrigues
- Enzo Menezes
- Marinetti
- Luigi Russolo
- Francesco Canguillo
- Giovanni Fontana
- Hugo Ball
- Raul Hausmann
Objetivos/Metas
- Investigar a voz como construção dramatúrgica expandida, considerando suas dimensões sonoras, poéticas e performáticas
- Criar partituras voais que explorem ruído, timbre, respiração, repetição e silêncio como elementos de significação
- Produzir três experimentos performativos que atuem em diferentes camadas da vocalidade: o chão (poesia sonora), o corpo (ensaio/repetição), e o espaço (Antígona e a cidade subterrânea)
- Explorar o espaço urbano de Brasília como elemento cênico e acústico
- Contribuir para uma discussão sobre o papel da voz no teatro contemporâneo e suas intersecções com a performance, a música experimental e a paisagem sonora
- Registrar e refletir criticamente sobre o processo criativo de modo a fundamentar teoricamente a pesquisa artística
- Desenvolver bases conceituais, metodológicas e práticas que sirvam como ponto de partida para a continuidade do estudo no doutorado, aprofundando a investigação da dramaturgia vocal do ator em diálogo com as paisagens sonoras
História pessoal por detrás do projeto
Minha trajetória como ator sempre foi atravessada pela busca de aprendizado, presença, escuta e intensidade. Ao longo da minha formação e prática teatral, encontrei na voz não apenas uma ferramenta expressiva, mas uma linguagem própria, capaz de afetar, invocar e desenhar presenças. Trabalhei em uma Cia de Teatro por dois anos, que tinha a voz como centro do trabalho cênico, onde aprendi o suficiente para querer estudar cada vez mais a voz do ator/performer.
Aos poucos, a voz foi se tornando minha principal característica cênica, e também minha maior obsessão criativa. Essa relação profunda com a vocalidade me levou a investigar seus desdobramentos para além do teatro de texto, mergulhando na performance, na música experimental, na poesia sonora e na escuta da cidade. O projeto nasce desse percurso pessoal artístico e da urgência de dar forma a uma pesquisa que atravessa corpo, som e palavra.
Vejo neste momento uma oportunidade concreta de aprofundamento teórico e prático dentro da disciplina Dramaturgias Cênicas, ministrada pelo professor Dr. Marcus Mota, cujos atravessamentos conceituais têm ampliado meu entendimento sobre sons, e a própria voz como potência dramatúrgica e performativa. esta pesquisa é, ao mesmo tempo, um desdobramento das minhas experiências anteriores e uma preparação para u mergulho ainda mais profundo nessa temática, que pretendo desenvolver futuramente em um projeto de doutorado.
Além disso, estou atualmente finalizando um mestrado intitulado Censura em Cena: Perspectivas de artistas sobre sobre as restrições à liberdade de expressão no teatro paulistano atual, uma pesquisa muito importante, mas fortemente ancorada em bases teóricas e históricas. Por isso, essa oportunidade prática representa não apenas um contraponto, mas também uma expansão da minha formação, pois inclui o retorno á cena como ator criador. É nessa encruzilhada entre teoria e prática, entre pesquisa e performance, que vejo a possibilidade de um trabalho mais completo, sensível e coerente com a minha trajetória.
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