Ao propor uma performance no Eixão, evoca-se um espaço marcado por instabilidade e contradição: uma via de trânsito contínuo, construída sob os princípios de velocidade, funcionalidade e racionalismo urbano que regem o planejamento modernista de Brasília. Pensado para os carros, e não para os corpos, o Eixão materializa a lógica de uma cidade que privilegia o deslocamento mecânico em detrimento da presença sensível.
Inserir uma ação performática nesse território representa, portanto um gesto de ruptura: rompe-se não apenas com o uso técnico e utilitário do espaço, mas também como o ideário de uma urbanidade que desautoriza o corpo, a pausa, a escuta e o improviso. A performance, ao inscrever-se nesse não-lugar, tensiona o projeto moderno e instaura outras possibilidades de experiência urbana, poéticas, políticas e sensoriais
Este experimento tem como objetivo investigar a relação entre a voz do ator e a paisagem sonora urbana a partir de uma ação performática situada no Eixão Norte de Brasília, na altura da quadra 310. A proposta parte do princípio de que a voz pode ser afetada, tensionada e modificada pelas camadas sonoras da cidade, assumindo os ruídos urbanos não como interferência, mas como matéria dramatúrgica. O experimento busca afinar a escuta, perceber o espaço antes de construir a cena e propor uma vocalidade que não se sobreponha ao ambiente, mas que dialogue com ele de forma sensível e crítica.
Justificativa estética e simbólica
A escolha do Eixão, não é aleatória. Trata-se de uma das estruturas mais emblemáticas da lógica modernista da cidade, planejada para o deslocamento rápido de veículos, e não para o corpo que caminha ou permanece. Ao propor uma ação cênica nesse espaço, o experimento instala um corpo que pausa, escuta e resiste: deitado no chão do Eixão, pequeno diante da escala monumental da cidade, o ator subverte a função original do espaço. A performance emerge, então, como um gesto político e poético, em que a voz, entre o grito e o sussurro, se torna índice de presença, fragilidade e enfretamento frente ao ruído urbano e à lógica produtivista da cidade.
Etapas e Procedimentos
- Visita técnica e escuta ativa: A primeira etapa consiste na realização de visitas técnicas ao local da performance, com os seguintes objetivos:
- Percorrer a área e escolher o ponto exato da ação: que será na altura da região 310 norte
- Registrar o ambiente com gravador e celular com microfone externo, captando sons da cidade, ruídos de carros, vozes humanas, passagens de vento, buzinas e camadas imprevisíveis do espaço
- Realizar registros visuais como fotos e vídeos que capturam a arquitetura, os vazios, os fluxos, as colunas, o concreto e a pulsação do lugar
- Produzir uma escuta reflexiva posterior, identificando as texturas sonoras presentes no ambiente, reconhecendo possíveis repetições, silêncios, interrupções e composições involuntárias da cidade
- Registrar impressões e hipóteses no diário de bordo digital Blogger, que serve como arquivo-processo
2. Composição da cena e gravações
A cena será construída a partir de variações vocais inspiradas nos princípios da poesia DADA, desconstrução da palavra, ênfase na sonoridade, uso do absurdo e da repetição, buscando uma vocalidade que dialogue com o espaço e seus sons. O corpo e a voz do ator estarão disponíveis á escuta e ao risco do ambiente.
A performance será registrada em um plano-sequência que organiza, em camadas visuais e sonoras, a relação entre a cidade e o corpo vocal do ator. Toda a ação se passa com o ator deitado no chão do Eixão Norte, imóvel em sua posição inicial, enquanto a câmera percorre uma trajetória narrativa e sensorial que vai da paisagem à carne.
A proposta parte da ideia de que o espaço urbano não é apenas "fundo" da ação, mas sim coautor da cena, seus ruídos, sua escala, sua pulsação atravessam o corpo do ator e influenciam diretamente a construção da vocalidade.
Etapas do plano-sequência:
- Plano Geral da cidade (Estabelecimento do Espaço)
A câmera inicia o plano registrando o Eixão em sua monumentalidade. trata-se de um plano aberto e estático, com grande profundidade de campo, no qual o foco inicial não é o ator, mas a própria cidade. O trânsito, os sons, o céu, as pistas, a vegetação, ciclistas e corredores surgem compondo com o som do ambiente. O ator, mesmo presente na imagem, aparece como um ponto quase invisível ao fundo. Nesse momento o som ambiente é captado de forma plena, com destaque para o ruído urbano e suas texturas.
2. Plano Detalhe do Espaço vivo (Corpos Urbanos)
A câmera, ainda em plano aberto, se aproxima de detalhes do entorno: pés correndo, bicicletas, árvore, ... Esses elementos e fragmentos formam uma partitura visual do cotidiano, guiada pela escuta e pelo acaso.
3. Aproximação Lenta do Corpo Performático (Travessia da Escuta)
Em seguida, inicia-se um movimento contínuo da câmera em direção ao ator. A câmera caminha com o olhar, atravessa o concreto, atravessa o ruído até encontrar o corpo deitado no chão. A voz do ator começa a emergir, captada por um microfone externo de alta sensibilidade, garantindo nitidez mesmo à distância.
Essa vocalidade nãos segue forma textual definida: é fluxo, é ruído poético, é gesto vocal. Palavras desconstruídas, sons sem sentido fixo, repetições e quebras se misturam em uma emissão experimental inspirada no Dada. A cidade não é silenciada, continua soando ao fundo, compondo em contraponto com a voz. Voz e cidade se entrecruzam, sem hierarquia.
4. Plano Close (Voz, Pele e Concreto)
Conforme a câmera se aproxima, a voz do ator vai ganhando corpo, textura e densidade. A câmera, então, se iguala ao corpo: deita-se no chão junto a ele, assumindo á sua perspectiva e sua escuta. O close revela o rosto do ator, o microfone, o movimento da boca, o suor, a respiração.
Dimensões estética e política do plano
O percurso da câmera reflete também um percurso de escutar: sair do macro, da distância, da distração, e chegar ao micro, ao corpo, à voz. A decisão de manter o ator o tempo todo no chão, imóvel, cria uma tensão com o mundo em movimento à sua volta. A cidade corre, mas o corpo resiste. Ele escuta, vocaliza, e, mesmo em silêncio, continua performando a escuta.
Essa dramaturgia da aproximação faz da câmera não um simples dispositivo técnico, mas um corpo em deslocamento. Ela também performa. Sua aproximação progressiva transforma o olhar em caminhada, e o espectador é convocado a acompanhar essa travessia. Ao final, o plano-sequencia se torna uma espécie de coreografia entre câmera, cidade e voz.
Interferência da cidade como dramaturgia sonora
A vocalidade proposta não será estruturada como discurso organizado ou narrativo. Ela se abre como campo de tensão, jogo e escuta. os ruídos da cidade, buzinas motores, passos, vozes distantes, não serão tratados como interferência a ser eliminada, mas como camadas fundamentais da composição.
Essa perspectiva está ancorada em autores como R. Murray Schafer, com sua concepção de aisagem sonora e escuta como forma de cartografar o ambiente, John Cage, para quem o som é acontecimento e alteridade radical, Adriana Cavarero, ao propor a voz como exposição da singularidade, Artaud, com sua ideia de voz como fluxo cru e poético e Laurie Anderson, artista que transforma a voz em dispositivo de montagem, ficção e performance.
Documentação e análise
Os materiais coletados: vídeos, áudios, fotos e reflexões escritas, serão sistematizados no Blogger, funcionando como um arquivo sensível e processual da pesquisa. A análise será feita a partir da pesquisa. A análise será feita a partir de duas chaves principais:
- A análise será guiada por duas chaves principais:
- A relação entre voz e o espaço urbano,
Aqui o foco será em como a vocalidade do ator responde aos estímulos do entorno, entra em fricção com os ruídos e se deixa contaminar pelas sonoridades imprevisíveis da cidade.
A análise pretende traçar cartografias de escuta, identificando momentos em que a voz se torna eco, resistência, interrupção, ou mesmo quando desaparece na massa sonora, assumindo a cidade com um coautor dramatúrgico.
A voz nesse sentido, será estudada não como meio de enunciação de discurso, mas como presença corporal-sonora que merge da escuta.
2. A montagem audiovisual como escritura dramatúrgica
A gravação em plano-sequência será analisada não apenas como documentação da performance, mas como um objetivo artístico em si, onde a escolha dos enquadramentos, os tempos de permanência da câmera e a construção das camadas sonoras constituem uma dramaturgia da escuta e da aproximação.
A montagem audiovisual como instância dramatúrgica, considerando o processo de edição como escritura poética e não apenas documental, inspirada em conceitos de montagem sonora e visual (Eisenstein)
Desdobramentos
Este experimento servirá como base para pensar os limites e as possibilidades da voz em contexto urbano. Ele também funcionará como disparador para os próximos dois experimentos da pesquisa, nos quais outras abordagens da voz e da cidade serão exploradas.
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