Objeto de estudo - Experimento 2 - Dramaturgia do ensaio repetir até morrer: a voz como dramaturgia

Dramaturgia do ensaio repetir até romper: a voz como dramaturgia

    O segundo experimento parte da sala de ensaio como espaço cênico e dramatúrgico. um lugar de intimidade e de exposição. nele, o ator inicia um aquecimento vocal, um gesto comum, cotidiano quase invisível dentro dos processos de criação teatral. Aos poucos esse aquecimento se transforma. 
     Entre ressonâncias, respirações e vibrações, emerge um texto. Um texto único, curto, sem alterações, mas que será repetido em loop. Cada repetição é uma nova escuta. A mesma frase, agora habitada por diferentes dinâmicas vocais: sussurros, gritos pausa, deslizes, ruídos, musicalidades.
    Este texto será criado propositalmente por seu potencial fonético e rítmico, permitindo torções sonoras e corporais. A proposta é tratar o texto como partitura e o corpo como instrumento de ressonância sem necessidade de sentido lógico, mas com potência dramatúrgica vocal.
    O objetivo não é comunicar conteúdo, mas tensionar o espaço entre a repetição e a transformação. Mostrar que a dramaturgia da voz não está apenas no que é dito, mas em comi se diz, e no que ecoa entre as palavras. A performance vocal se torna, assim, escritura viva, capaz de desenhar atmosferas, afetar presenças e gerar escuta.

Para a construção da dramaturgia 

    A proposta parte do estudo de intenções vocais presentes no texto e da criação de uma partitura vocal que busca gerar signos sonoros capazes de ampliar a gama de informações e possibilidades comunicativas da fala. Trata-se da construção de uma dramaturgia sonora, feita a partir de fragmentos de diálogos e de processos de montagem vocal.
   Na composição dessa partitura, o trabalho se concentrará na experimentação com vogais e consoantes, na exploração consciente da respiração, na sonorização de sílabas e palavras como indutores de movimentos corporais. Também serão investigadas diferentes qualidades vocais  como palavras alongadas, secas, trêmulas, cortadas, repetidas ... a fim de construir uma tessitura sonora que transcenda a linearidade do texto e proponha outras camadas de sentido e presença.


Resto de voz

antes do nome
já era dor

barulho sem dono 
rasgo 

fundo da garganta 
quente
úmido
esquecido

a língua não dizia 
a língua tremia 

corpo sem vocabulário 
só pulso
só sopro 

(de novo)

só pulso 
só sopro

eu?
nao sei o que dizer 

me disseram 
fale 
fale
fale

mas a palavra não veio

só uma lasca
só um corte
só um sussurro
trêmulo 
frio
cansado

e mesmo assim
ela ficou
a palavra
ficou
aqui

presa
feita espinho
feita nome

(eu?)
nao sei o que dizer 
fale
fale
fale
uma palavra
que ninguém terminou






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