A voz do ator como ponto de partida

 

Provocações: voz do ator + paisagens sonoras


O homem ao nascer é som vocal

No âmbito etimológico da Vox latina, o primeiro significado de vocare é chamar, invocar. Ainda antes de se fazer palavra, a voz é uma invocação dirigida ao outro e confiante num ouvido que a acolhe. A sua cena inaugural coincide com o nascimento. Aqui o infante, com seu respiro inicial, invoca uma voz em resposta, chama um ouvido para acolher seu grito, convoca outra voz. A ligação intrauterina - que já era rítmica, musical - é quebrada. O primeiro vagido invoca então novo liame sonoro: vitalmente decisivo como a respiração que o sustenta. (...) A voz é sempre para o ouvido, é sempre relacional; mas nunca o é de modo peremptório como no vagido do infante: vida invocativa que se entrega inconscientemente a uma voz que responda. (...) Essa ligação instaura a comunicação primária de qualquer comunicável e por isso constitui um pré-requisito. Ainda não há nada a comunicar, salvo a comunicação mesma em sua pura vocalidade. Acima de tudo, a voz significa, ela mesma, nada além de um vocálico relacional que já está implícito, como invocação, no vagido inaugural. (Cavarero, 2011, p.199)

Platão e voz - texto Crátilo

Pesquisa  da voz século XX e começo do XXI

Teatro que dialoga com a poesia

Poesia Experimental com foco na voz 

** é a voz, na moldura da fala, que cria espaços

**poesia fonética (meio de compreender as revoluções da voz e do som)

*** site (Ubuweb) www.ubu.com/sound 

**poesia sonora - Pierre Schaffer - 1942

Teatro não pautado no texto dramático, voz não pautada no bel canto, surgimento de novas experiências cênicas


Futurismo - Filippo Tommaso - construção da nova sonoridade da vida moderna

*Luigi Russolo - Bruitism/Ruidismo - A arte do ruído

*John Cage - som é ruído - 1940 - The future of music (conferência)

    **o silêncio como ferramenta

    ** aproximação com o oriente - princípios chineses 

    ** "não intencionalidade intencional" ou  o paradoxo (a purposeful purposelessness). Trata-se de uma vontade de abdicar do domínio sobre a natureza, do controle, dos pressupostos e regras que, de maneira geral, orientam a criação artística ocidental. Cage quer aproximar a arte da vida... fazer com que nossas ações intencionais sejam relacionadas às ações não intencionais do ambiente (Cage, 1974, p. 80)

Independente de onde estamos, o que mais escutamos é ruído. Quando ignoramos o ruído, ele nos incomoda. Se nós o ouvimos, achamos fascinante. o som de um caminhão a cinquenta milhas por hora. Ruído fora das estações de rádio. Chuva. Nós queremos capturar e controlar estes sons, par usá-los não como efeitos sonoros, mas como instrumentos musicais. (...) Com o filme fotográfico é agora possível controlar a amplitude e frequência de muitos desses sons, e dar eles ritmos muito além do que alcança a imaginação (Cage, 2011, p. 3)

*Performance 4'33 - David Tudor 1952 - tocar em silêncio piano - tempo que é silêncio e que é música

*Robert Rauschenberg - telas pretas e telas brancas

*Câmera Anecóica - silêncio com ausência absoluta de som, não existe 

*Pierre Boulez 

*Mallarmé - poética - acaso na arte


Elementos básico da música nas palavras: intensidade + dinâmica + ritmo + cor timbrística + duração ... (música nas palavras)


Dadaísmo - Cabarte Voltaire - poesia fonética/ glossalia/fonemol- grupo Fluxus


Anos 60 e 70 - a performance, os artistas pelo corpo criam possibilidades com a voz

*Yoko Ono "obra para voz de soprano" 1961

*Laurie Anderson "por instantes" 1976

*Voz Contemporânea

-Mudanças de entonação na fala (século XXI)

         **falar mais alto, alteração da entonação 


Paisagens Sonoras + Schafer

* conceito de poluição sonora: 

No ambiente sonoro hodierno, a voz humana tem perdido espaço para os sons mecânicos, tecnológicos e eletrônicos, fruto de um crescente desequilíbrio, que vem desde a Revolução Industrial (SCHAFER, 2002, p.107)

A maior parte dos sons que ouvimos nas cidades, hoje em dia, pertence a alguém e é utilizada retoricamente para atrair nossa atenção ou para nos vender alguma coisa. À medida que a guerra pela posse de nossos ouvidos aumenta, o mundo fica cada vez mais superpovoado de sons, mas, ao mesmo tempo, a variedade de alguns deles decresce. Sons manufaturados são uniformes e, quanto mais eles dominam a paisagem sonora, mais homogênea ela se torna (SCHAFER, 2001, p. 12).  

Um som não encara a si próprio como pensamento, como algo precisado, como se necessitasse de outro som para sua elucidação, como etc.; ele não tem tempo para considerações - ele está ocupado com o desempenhar de suas características; antes de se dissipar, ele deve ter tornado perfeitamente exatos sua frequência, sua altura, sua duração, sua estrutura de sobretons, a morfologia exata dos mesmos e de si próprio. (CAGE, 2019) 

"Nós apenas não podemos saber quais tipos de sons e paisagens sonoras vamos colher quando saímos para gravar para uma peça, como também não podemos antecipar o que nos será revelado quando escutarmos os sons gravados e quando começarmos a editar, mixar e a processá-los." (WESTERKAMP, 2002) 

“O que o analista da paisagem sonora precisa fazer, em primeiro lugar, é descobrir os seus aspectos significativos, aqueles sons que são importantes por causa de sua individualidade, quantidade ou preponderância”. (SCHAFER, 2011, p. 25 e 26) 

“Uma paisagem sonora consiste em eventos ouvidos e não em objetos vistos.” (SCHAFER, 2011, p. 24)

R. Murray Schafer para o termo ruído: são indesejados, não-musicais, fortes, e são sobretudo elementos de ambientação espacial que exercem um papel de interferência no sistema de sinalização poética, como a estática no telefone e o chuvisco na tela de televisão. 

Poluição sonora é o excesso de sons desagradáveis, intensos ou indesejados que interferem no bem-estar físico, psicológico e até social das pessoas. em ambientes urbanos, ela é considerada uma das formas mais invisíveis de poluição, porque não deixa resíduos visuais, mas atravessa o corpo e escuta cotidiana

exemplos: trânsito(buzinas, motores), Obras e construções civis (britadeiras, martelos hidráulicos), Comércio e atividades noturnas (música alta, aglomerações), Equipamentos urbanos: (sirenes, alarmes, geradores),  Aviões, trens e metrôs (em áreas urbanas densas)

Como diz Schafer em seu manifesto pelo resgate ecológico da paisagem sonora mundial, “se temos a esperança de melhorar a nossa clariaudiência, é preciso redescobrir o silêncio como um estado positivo em nossa vida. Silenciar o barulho da mente, como dizem os taoístas: tal é a primeira tarefa. Depois, tudo o mais virá a seu tempo

**os estudos sobre paisagem sonora + silêncio + ruído e voz ainda não são poucos

**crescimento das cidades

**surdez universal

*Murray Schafer: propõe o conceito de paisagem sonora (soundscape), defendendo a escuta atenta e a ecologia sonora. Ele fala da hi-fi (alta fidelidade sonora, onde se ouvem muitos detalhes), e lo-fi (sons comprimidos e embolados, como nas cidades)

*John Cage: valoriza o silêncio e os sons do cotidiano como matéria musical. O que é ruído? O que é som artístico?

*Salomé Voegelin: trabalha com a escuta como prática estética e política, a escuta constrói o mundo, não apenas o registra

Perguntas norteadoras sobre paisagem sonora. 

  • A poluição sonora interfere na escuta do ator e do espectador?
  • O que se perde (ou se ganha) quando a cidade grita demais?
  • É possível uma dramaturgia vocal que dialogue com a cidade poluída sonoramente?
  • Como a performance pode ser um gesto de "reconquista" da escuta no espaço urbano?

*Hi-fi e Lo-fi (realidade grandes cidades)

Ao contrário de outros órgãos dos sentidos, os ouvidos são expostos e vulneráveis. Os olhos podem ser fechados, se quisermos; os ouvidos não, estão sempre abertos. os olhos podem focalizar e apontar nossa vontade, enquanto os ouvidos captam todos os sons do horizonte acústico, em todas as direções. (Schafer, 1992, p.55)

*Storolli 

Através de sua ressonância, a voz resta como vestígio, vibração, em tudo o que atinge. A voz carrega em si marcas da sua origem, a memória do corpo gerador. Resultado de seu processo criativo, é ao mesmo tempo meio, instrumento pelo qual a ação do corpo materializa ... A voz nos possibilita sair de nós mesmos, nos lançando ao espaço circundante. Assim, este desalojar pode ser percebido como uma expansão dos limites do corpo, sua ampliação no tempo e no espaço. Sem outros recursos senão aqueles inerentes a ela própria, a voz é percebida como ação do corpo. Capaz de transborda-lo no espaço, borrando seus limites, permeando outros corpos e objetos na sua trajetória. Compreendida assim, a voz é uma forma de movimento do corpo no espaço, fazendo parte do processo do co-construção deste, gerando espaço na medida em que o ocupa. (Storolli, 2009, p.157)

À dimensão estética da voz pertence sua espacialidade, que compreende o espaço do corpo (tanto daquele que fala como daquele que escuta), assim como inclui os espaços nos quais estes corpos agem e nos quais as vozes soam, os espaços reais e imaginários, espaços próprios e conhecidos assim como espaços estranhos e desconhecidos, abrangendo ainda o aspecto social destes espaços. (Kolesch apud Storolli, 2009, p.158)


Sob a perspectiva de um trabalho vocal - uma nova poética

*valores de modelação temporal

*valores de intensidade

*personagens, aproximar-se de uma concepção musical da voz

*tonalidades

*andamento

*tratamento que reside na semântica da linguagem

*dramaturgias performativas 

*o falar, as palavras é parte constitutiva da experiência sonora 

*desacelerar corpo e voz

O chamado, digamos assim, para abrir os ouvidos a outros sons, aos ruídos, aos sons cotidianos, a outras possibilidades de criação musical e artística, ao aqui - e agora, ao experimentalismo, à performance corporal, à integração arte-vida, à abertura a novas formas de existência, ao happening, sem dúvida influenciou enormemente a configuração de uma nova vocalidade. (Becker, 2010, p.122)


                                                      A performance da palavra

“A voz humana constitui em toda cultura um fenômeno central de modo que ao penetrar o interior desse fenômeno pode-se ver a totalidade do que está na base dessas culturas, na fonte de energia que as anima irradiando todos os aspectos de sua realidade” (Zumthor, 2000, p. 13).

* Corpo e voz, a partir do século XX, andam juntos. A expressão da voz é indissociável dos processos do corpo

Erika Fischer - Lichte coloca que para as vanguardas históricas o corpo do ator não era mais percebido como um texto composto pelos sinais das emoções - como concebia o teatro ilusionista burguês anterior ao surgimento das vanguardas - mas sim um material bruto a ser trabalhado para diferentes significações e a serviço de diferentes linguagens. para alcançarem suas aspirações, os artistas das vanguardas européias dirigiam sua atenção para o teatro de outros países: Japão, China Bali e Índia. Observaram que o teatro, nesses países, estava longe de pretender criar qualquer ilusionismo, Diferentemente do teatro europeu burguês, no oriente e a linguagem teatral se estruturava por meio de convenções. Segundo a autora, o interesse estava na abundância de convenções e modos realistas. Os teatros for da Europa forneciam uma arte de atuação que não estava destinada a expressar as emoções de um indivíduo ... (Fischer-Lichte, 1997, p.35)

* O teatro Burguês ilusionista do século XVIII a palavra era o centro absoluto. Teatro imitação da natureza

*Texto dramático ocupava o lugar central da cena, e todos os elementos teatrais (cenografia, luz, figurino ...) se articulavam para dar sentido ao texto

*Antonin Artaud teatro que nega a reação tradicionalista, ele nao negava a palavra mas procurava, a partir dela outra experiência 

Não se trata de suprimir a palavra do teatro, mas de fazê-la mudar sua destinação. ... Ora, mudar a destinação da palavra no teatro é servir-se dela num sentido concreto e espacial, na medida em que ela se combina com tudo o que o teatro contém de especial e de significação, no domínio concreto; é manipulá-la como um objeto sólido e que abala coisas, primeiro no ar e depois num domínio infinitamente mais misterioso e secreto (Artaud, 1999, p. 80)

A voz, como fonte de energia sonora, deve repercutir sobre a sensibilidade e os nervos do espectador através de qualidades e vibrações de sons não habituais. Não há  a intenção de suprimir o texto ou a fala no teatro, mas libertá-lo da tutela de ambos, utilizando a palavra num sentido concreto e especial, exprimindo o que de hábito ela nao exprime. A palavra deverá se r manipulada como objeto sólido, um objeto que derruba e pertuba as coisas. É vital reuni-la de novo aos movimentos físicos que a suscitam, tomando-a em sua sonoridade, e não exclusivamente no seu significado gramatical; apreendê-la enquanto movimento que é, retornando desse modo às origens ativas, plásticas e respiratórias da linguagem. As palavras deverão ser interpretadas não só no sentido lógico, mas também no seu sentido de sortilégio, o que dará maior amplitude á voz, tirando das vibrações, das modulações e evoluções de toda espécie. (Januzelli, 2003, p.22)

O ator precisa se ouvir. trata-se, aqui de um dizer que escuta, permitindo a polifonia que é própria de cada palavra. A prática de desaceleração, portanto, é a ponte que permite ao ator essa escuta de si mesmo. De sua própria voz. E para Heidegger, "poesia é na maior parte do tempo escuta" (Heidgger apud Barboza, 2010, p. 59)

*Fonemol ou Glossalia

 Qualquer que seja a maneira pela qual somos levados a remanejar (ou a espremer para extrair a substancia) a noção de performance, encontraremos sempre um elemento irredutível, a ideia da presença de um corpo. Recorrer à noção de performance implica então a necessidade de reintroduzir a consideração do corpo na obra. ora, o corpo ... é da ordem do indizivelmente pessoal. (Zumthor, 2007, p.38)

Zumthor, investigação está concentrada nas palavras, ele pensa performance em relação a transmissão de textos poéticos sejam eles orais ou escritos.

*Leitura de texto, tb uma performance 

*Adriana Cavarero - capítulo ECO ou ressonância, relembra o mito da ninfa ECO


Referências bibliográficas, ou Pontos de pesquisa

- Wania Storolli

-Antonin Artaud

-Susie Becker

- Teatro Laboratório de Jerzy Grotowski e Roy Hart Theatre

-Estética Futurista

-Estética Dadaísta

-Cabaret Voltaire

-Zumthor 

-Becker

-Pena

-Valente

-Cage

-Terra

- Januzelli

-Storolli

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